Entrevista com Diretor de 'Serbian Film'
A polêmica persegue "A Serbian Film - Terror Sem Limites" há tempos.
Exibido com estrondo em festivais internacionais, proibido na Espanha,
banido da Noruega e picotado pela censura britânica, tem provocado
burburinho onde quer que chegue. No Brasil, não foi diferente: a pedido
do patrocinador, saiu na semana passada da programação do festival
RioFan. Depois, teve sua pré-estreia proibida por uma juíza no sábado
passado (23 de julho). Não só isso: a única cópia do filme em película
está apreendida, nas mãos da Justiça do Rio.
"Serbian Film" não é uma produção qualquer. Conta a história de um
ex-ator pornô que sai da aposentadoria para um último trabalho, bem
remunerado, com a promessa de transformar pornografia em arte. Mas, nas
mãos de um diretor enlouquecido, a tarefa vira um show de horrores –
tortura e violência dão o tom, mas a gota d'água para muitos é o estupro
de um recém-nascido.
Em entrevista ao iG de Miami, onde passa férias, o
diretor sérvio Srdjan Spasojevic, 35 anos, reagiu com um misto de
desapontamento e resignação ao rumo do caso no Brasil. "É muito difícil
para mim. Acho extremamente estúpido, idiota e está ficando muito,
muito, chato", disse, referindo-se à rotina de proibições enfrentada
pelo filme.
Spasojevic afirma que o filme tem caráter "alegórico e político". Ele e o
roteirista Aleksandar Radivojevic pretendiam "fazer apenas uma crítica à
sociedade e às atrocidades enfrentadas pela Sérvia em sua história
recente".
"Queríamos mostrar com honestidade sentimentos profundos sobre a
nossa região e o mundo em geral. Na vida real, sentimos que nosso
dia-a-dia é tratado como pornografia. O personagem do ator pornô é uma
metáfora para qualquer trabalhador explorado por seus chefes ou pelos
governantes do sistema – cantor, padeiro, seja o que for."
Segundo ele, não havia a intenção premeditada de chocar nem de fazer
um filme de terror – considera "Serbian Film" um "thriller dramático".
"Sabíamos que tínhamos um filme forte, mas filmar era mais importante,
sem pensar no público ou na bilheteria.
“Filme não é para diversão”
Até mesmo o envolvimento de crianças e o alardeado estupro do
récem-nascido, diz, são "desenhos" de seus sentimentos. "Considero
muito, muito importante. É quase como dar um testemunho do que aconteceu
comigo. Não fisicamente, mas do quão profundamente os sentimentos
humanos podem ser violados - e colocar o público nesses lugares."
Para o cineasta, não é um filme para quem busca diversão: "Se você
procura uma comédia romântica ou algo só para entretenimento, não veja. É
uma lembrança das coisas ruins que acontecem ao nosso redor".
E alfineta os críticos de seu trabalho: "Pessoas inteligentes, que
espero que todos sejamos, conseguem ver além das cenas violentas. Mas
tem gente que não consegue compreender nem quem são os mocinhos e os
bandidos da história".
"Não precisava ver o filme"
Depois de ter sido vetado do festival RioFan, festival de cinema
fantástico do Rio ocorrido na semana passada, "A Serbian Film" iria ser
exibido em uma sessão especial em outro cinema, o Odeon, na noite de
sábado (23). Mas na véspera, Raffaele Petrini, responsável pela
distribuição do longa no Brasil, foi informado que um advogado do DEM e
um oficial de justiça estavam na porta de sua sala para apreender os
negativos.
A dupla executava liminar de uma ação civil pública expedida pela 1ª
Vara da Infância, da Juventude e do Idoso do Rio. O processo havia sido
ajuizado pelo escritório regional do DEM, segundo o qual o filme faria
"verdadeira apologia à prática de crimes contra as crianças" e "fomento à
pedofilia".
Em seu despacho, a juíza Katerine Jatahy Kitsos Nygaard afirma que
"não se pode admitir que, em favor da liberdade de expressão, um
pretenso manifesto político exponha de tal forma a degradação do ser
humano a ponto de violar um recém-nascido".
Em entrevista ao iG, o advogado do DEM carioca,
Victor Travancas, afirmou que, por conta do tempo hábil para elaborar o
processo e impedir a exibição, não assistiu a " Serbian Film" - assim
como a juíza.
"Não se viu o filme e nem precisava", disse ao iG,
por e-mail, César Maia, ex-prefeito do Rio e integrante do DEM. Segundo
ele, foi feita uma "varredura" na imprensa nacional e estrangeira. O
material foi compilado pelo partido e entregue à magistrada, que
concedeu a liminar. "Um filme que mostra cenas de horror sexual está
claramente proibido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente em seu
artigo 241. Quem proíbe é a lei em defesa da família e de seus valores."
A Petrini Filmes recorreu no final de semana, mas a desembargadora
Gilda Maria Dias Carrapatoso, do Tribunal de Justiça do Rio, manteve a
decisão inicial. "Não se pode permitir que, em nome da liberdade de
expressão, cenas de extrema violência física e moral, inclusive
utilizando recém natos, sejam levadas ao grande público", escreveu em
seu veredito.
De acordo com o advogado do DEM, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) proíbe que sejam exibidos filmes em que direta ou indiretamente crianças apareçam sendo abusadas sexualmente. De acordo com Travancas, a Constituição coloca o ECA em prioridade em relação a outros direitos. "Nenhum direito é absoluto. No caso da liberdade de expressão, é um direito que pode ser limitado no caso de pedofilia", explicou.
O último caso de censura em cinema no Brasil data de 1985, quando o longa francês "Je Vous Salue, Marie", de Jean-Luc Godard, teve sua exibição proibida – na época, por motivos religiosos, quando ainda estava em ação um conselho censor. Por isso, Travancas afirma que teve dificuldade em elaborar o processo, já que não há jurisprudência no assunto. "Mas também ninguém tinha tentado mostrar pedofilia no cinema."
O advogado admite que se sentiu "constrangido" ao acompanhar a apreensão dos negativos. "É óbvio que é uma cena ruim ver um filme sendo carregado para ser analisado. Mas se não houver um pouco de limite, acaba trazendo catástrofes para a sociedade que não são boas para a democracia", e enalteceu o fato de a polêmica "promover o debate" sobre o assunto.
Já o distribuidor de "A Serbian Film" afirma que nenhuma criança foi exposta à violência durante as filmagens – o recém-nascido seria um robô e o restante das cenas de violência, resultado de truques de edição e efeitos especiais.
A Petrini Filmes vai recorrer da decisão para tentar a liberação de "A Serbian Film" no Rio de Janeiro, embora o filme já tenha recebido a classificação etária de 18 anos do Ministério da Justiça, que não pode proibir uma produção ou exigir cortes.
A data de estreia, inicialmente prevista para o dia 5 de agosto, foi alterada para 26 de agosto. Até lá, diz Petrini, a distribuidora pretende rever contatos com os cinemas interessados em exibir o longa e refazer a estratégia, se concentrando, por exemplo, em sessões especiais noturnas.
FONTE : Ultimo Segundo IG

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